
Música 1
EU VIM AQUI
“Eu vim aqui, que mandaram me chamar, boa noite pessoal. Dono da casa, arreune os companheiros, faz roça no terreiro. Vamos trabalhar”
Cantada quando os trabalhadores, na zona rural de Serra Preta, Bahia, se reúnem para começar o trabalho de descaroçar o milho. Todo o trabalho na comunidade de Cabaceiras, é feito de maneira ritualística: rezam cantando em agradecimento às colheitas, pedem licença para começar a trabalhar, cantam durante o trabalho e em seguida festejam, caindo no samba.
Uma das poucas regiões do Brasil onde ainda podemos encontrar viva a tradição dos cantos de trabalho. Na época das colheitas e das batas do milho as pequenas comunidades se reúnem e praticam o antigo sistema de mutirão, onde o trabalho é feito de maneira solidária, para que todos possam ter o alimento.
Podemos dizer que a cultura dessa região da Bahia tem influências dos povos indígenas Payayás, que viveram por lá, mas com a chegada dos portugueses, foram praticamente dizimados, tendo deixado marcas muito importantes, presentes até hoje. Também uma região de refúgio de africanos escravizados, Serra Preta tem presença muito forte da população quilombola e o modo de viver de seus ancestrais está bastante vivo nos mutirões para trabalhar, na alimentação, na música, no vocabulário e na dança.
Venho fazendo visitas para registrar cantos na região desde 2017.
Aprendi esse canto em 2019, com os cantadores Florisvaldo Rodrigues do Rosário, Miguel do Rosário, Fabinho do Rosário, José Sena, Raimundo Bispo de Andrade, Alvino Mendes Dias e Adenil Pereira. Trabalhadores rurais/ cantadores.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 2
OILARAI
“Me ajuda companheiro, não me deixa eu cantar só, oilala....”
Cantada nos trabalhos de capinar terreno para plantio, os Oilarais são de tradição Açoriana. Chegaram através dos imigrantes Portugueses que aportaram em terras do Rio Grande do Sul, trazendo a cultura de trabalhar cantando na roça.
Aprendi em 2004, quando fui fazer registros para pesquisa de cantos de trabalho no Brasil, com a família de Orêncio Ramos, músicos/trabalhadores rurais em Santo Antônio da Patrulha, RS.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 3
QUANDO A LUA SAIR/ Ô LUA NOVA
“Quando a lua sair papai, eu vou girar papai...”
/ “Ô lua nova, ô lua cheia”
Aprendi com Florisvaldo Rodrigues do Rosário, trabalhador rural de Serra Preta, Bahia. Aboiador. Canta ainda hoje para reunir a boiada e de longe os animais conhecem o timbre da sua voz. Agricultor familiar, cultiva milho, feijão e mandioca e conserva o costume de cantar trabalhando no descaroçamento do milho e feijão e também no preparo do terreno para plantar.
Conta que seu pai, descendente do povo indígena Payayá, cantava o dia inteiro desde que acordava. Tinha música para todos os momentos da vida e aprendeu com ele essa cantiga da lua que era cantada nas batas do feijão e do milho.
“Ô Lua Nova”, é uma cantiga da tradição do Bumba meu Boi do Maranhão, registrada pela Missão de Pesquisas Folclóricas, pela equipe de Mario de Andrade, em 1938.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 4
CLAREIA O DIA/ MEU BARCO É VELEIRO/ JONGUINHO
Encontrei essa três cantigas no livro “Canções Folclóricas Brasileiras”, que reúne registros de professores bolsistas do INEP, feitas em campo na década de 1950. Um trabalho precioso, já que as cantigas foram registradas diretamente da voz do povo de cada local.
As três cantigas escolhidas, que se uniram em uma mesma música, foram recolhidas no Espírito Santo pela professora Maria Penedo, que era uma das professoras envolvidas neste projeto.
Elas trazem uma atmosfera comum: o nascer do dia, o mar, marinheiros, peixes, mas conservam diferentes traços culturais que se uniram por aqui. Meu barco é veleiro aparece em pesquisa de Mario de Andrade com melodia semelhante, nos registros de carregadores de piano em Pernambuco, que cantavam e caminhavam num mesmo ritmo para não desafinar o instrumento, a melodia traz influências das cantigas portuguesas, com temática das navegações. O Jonguinho tem forte influência rítmica e melódica dos jongos trazidos com africanos de origem Bantu, vindos do Congo e Angola. Esses cantos permaneceram presentes nas lavouras de café e cana de açúcar no Vale do Paraíba.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 5
CONGO DA SEREIA
Congo do Espírito Santo cantado pela Banda de congo Panela de Barro de Goiabeiras, que surgiu em 1938, em Vitória, ES.
Jamilda Bento Vitória e Mestre Valdemiro mantêm vivas na comunidade a cultura ancestral, como é o caso do Congo, das Folia de Reis, das cantigas de roda, tradições que mostram as raízes africanas, ibéricas e indígenas da cultura capixaba.
O Congo da Sereia foi registrado pelo grupo no cd “Brincar o Congo no Espírito Santo”, gravado no projeto de revitalização da Banda de Congo Panela de Barro de Goiabeiras, em 2001, através da lei Rubem Braga.
Tive a grande alegria e honra em conhecer Mestre Valdemiro Sales, artesão de casacas, além de mestre e cantor e Jamilda Bento Vitória, coordenadora dos projetos culturais da comunidade.
Entre tantas letras e melodias belíssimas escolhi a Sereia, que fala em ouvir cantar, cantar na areia, na beira do mar. Achei que teria uma costura linda com as outras cantigas do repertório, tanto no tema quanto na melodia.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 6
PESCADOR E CANOEIRO
No vale do Jequitinhonha podemos encontrar inúmeros cantos ligados aos trabalhos, tradição que ainda sobrevive por lá, na voz ou na memória das lavadeiras, canoeiros, das fiandeiras de algodão, boiadeiros, machadeiros. Por lá também os traços das nossas três matrizes culturais se entrelaçaram dando origem a um cancioneiro riquíssimo e aos costumes culturais vindos desses povos.
Conheci a cantiga Pescador e Canoeiro numa gravação feita pelo grupo Nós de Minas, da cidade de Ouro Fino no Vale do Jequitinhonha. Um canto de Beira - mar tradicional, recolhido em Araçoaí, em 1999. Ouvindo essa melodia imediatamente me lembrei da música “Beira mar novo”, e sugeri a citação dela, o que foi realizado lindamente no arranjo da Tarita, que também sentiu essa fusão como algo natural.
Quando fui pesquisar, soube que Beira mar novo, soube que também foi recolhida na cidade de Araçoaí, alguns anos antes por Maria Lira Marques, filha de lavadeira e Frei Chico, que juntos, registraram e divulgaram grande repertório da cultura popular do Vale.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 7
PEGUEI UM PEIXE
Aprendi essa música com um grupo de Destaladeiras de Fumo da Vila Fernandes, zona rural de Arapiraca, cidade do Agreste Alagoano. Região de forte cultura do plantio do fumo para o comércio de fumo de rolo.
Lá, até meados da década de 1960, era comum o canto acompanhar os trabalhos no período de tirar os talos das folhas de fumo, por isso essas mulheres são chamadas de “destaladeiras de fumo”.
As mulheres se reuniam nos salões das fazendas para realizar esse trabalho, que durava muitas vezes a noite inteira. Nesses encontros a comunidade toda se reunia em volta do grupo que cantava para assistir e admirar, tamanha a beleza daquelas melodias e vozes. Surgiam versos improvisados trazendo assuntos cotidianos, divulgando notícias, falando de amor, versos cômicos que faziam o povo se animar muito e isso tudo fazia com que o trabalho acontecesse sem que ninguém sentisse o peso da lida.
Como a cultura do fumo se fortaleceu muito e foi surgindo enorme demanda por mão de obra, foram vindo trabalhadores de todo o nordeste para morar e trabalhar nessa região e com isso vieram cantigas diversas, tanto de regiões litorâneas como do sertão, e isso foi aos poucos formando um repertório muito rico e diverso, com diferentes origens, que até hoje é lembrado pelo povo da região.
Receberam muita influência cultural do povo indígena Cariri Xocó. Podemos encontrar na aldeia próxima, em Porto Real do Colégio, músicas que são cantadas quase com a mesma melodia e letra, tendo pequenas declinações melódicas e linguísticas. Como é o caso da cantiga Peguei um peixe.
O grupo que cantou esse canto para mim em 1999 era formado por: Rosália Gomes dos Santos, Maria Oliva da Conceição, Joséfa Correia de Lima, Maria do Socorro Porfírio Silva, Izabel Cipriano dos Santos, Rosinalva Farias dos Santos, Iraci Pereira dos Santos e Maria Pereira dos Santos (trabalhadoras rurais/cantoras).
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 8
Ô LIÁ
Ô Lia é um Coco dançado e cantado em Tacaratu, Pernambuco, para aplainar o chão de barro das casas de taipa.
Chamado Coco de Tebei, essa expressão cênica, musical e literária é praticada por um grupo de agricultores e tecelões da comunidade Olho D’água do Bruno, na cidade de Tacaratu. Curioso demais é que essa modalidade do coco só aparece nesta pequena comunidade, tendo sido passada de geração para geração.
Conheci esse coco através de gravações enquanto pesquisava cantos ligados ao trabalho, e mais tarde fui conhecer o grupo no projeto Sonora Brasil do Sesc, que levou-os para se apresentar por todo território nacional.
O grupo que canta essa música é formado pelas cantadeiras Maria do Carmo de Jesus, Nivalda Rosa Gomes do Nascimento, Maria Nazaré Nunes dos Santos, Janaína Maria dos Santos, Edna Nivalda do Nascimento e Edilaine dos Santos.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 9
MAUAKÁ
Cantiga de ninar do povo indígena Mehinako, do alto Xingú. Cantada na língua Waurá, língua da família Aruak.
A letra fala de um macaco que toma conta da criança enquanto a mãe vai pescar.
Aprendi com Kawakani Mehinaki, durante aulas que fiz sobre repertório de cantos de tecelagem, cantigas de brincar e de ninar.
Kawakani vive em São Paulo, onde cursa faculdade de Odontologia com o objetivo de voltar para o Xingú e cuidar da saúde dental da aldeia.
Enquanto custeia o curso e a vida na cidade de são Paulo, ministra cursos sobre sua cultura para divulgar e como forma de sobrevivência.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 10
ORE MA
Cantiga sagrada do povo indígena MARAK’ANA, do Rio de Janeiro, RJ. Cantada em Tupi.
A letra diz “só nós (os Guaranis), acreditamos na terra sem mal, que fica do outro lado do horizonte, e vamos beber a água no bambu sagrado, levar uma vida de alegria, alegria, alegria”.
Aprendi com o líder da aldeia marakanã, o cacique Urutau Guajajara, que ministra um curso de cantigas de seu povo através da Universidade Indígena Aldeia Marakanã.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 11
CANTIGA DE ESMOLA
“Os mendigos no Brasil costumam sempre pedir esmolas cantando, principalmente no interior” (Mario de Andrade)
Registrada pela Missão de Pesquisas Folclóricas, Mario de Andrade e equipe, na Paraíba em 1936, época em que ainda era comum encontrar, principalmente nas feiras do nordeste, esse costume vivo. São de tradição Ibérica esses cantos de pedintes.
O informante foi José Francisco Cardoso, Itabaiana, Paraíba.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 12
ARAÚNA e ARARINHA
Encontrei Araúna também no livro “canções folclóricas Brasileiras”. Foi registrada pela professora Maria Augusta Joppert em 1967, no Rio Grande do Norte (Na Fazenda de Angicos).
Um cantiga tradicional com um assunto recorrente nas plantações, que é de espantar os passarinhos para que não comam a safra. Aparecem em muitos estados do Brasil cantos que trazem esse tema por ser comum os trabalhadores terem que proteger as plantações.
Ararinha vem de Sergipe, das plantadeiras de arroz de Propriá. Foi cantada por Maria José Acácio Lima, durante uma visita que fiz para conhecer mulheres que cantavam durante a colheita de arroz na roças que beiravam o Rio São Francisco na cidade de Propriá.
Esses cantos só restaram na memória de algumas mulheres. Foram desaparecendo conforme as barragens eram construídas e as trabalhadoras perderam suas pequenas plantações, tendo que migrar para outras localidades da cidade onde não podiam mais plantar.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 13
DEIXEI DE PLANTAR CAFÉ e LELEÔ
A primeira aprendi com a trabalhadora rural e mestra, Rosália Gomes dos Santos, da Vila Fernandes em Arapiraca, Alagoas.
Dona Rosália traz na memória incontáveis cantos de trabalho. Desde muito pequena foi trabalhar nas plantações de fumo e começou a ouvir aqueles belos cantos na época de destalar o fumo. Logo que pode, se uniu às mulheres e aprendeu a improvisar versos e a soltar a linda voz na cantoria.
Essa cantiga fala sobre as transformações no meio rural nordestino com a chegada das usinas de cana de açúcar que vieram desestruturar a pequena produção de cultivos alimentares e fizeram os trabalhadores deixarem suas roças e irem para o plantio de cana, sendo praticamente escravizados pelos donos das usinas, o que acontece até os dias de hoje.
A cantiga Leleô vem das plantações de cana de açúcar na Bahia, do período em que ainda cantavam durante o trabalho, usando os próprios facões como instrumentos sonoros, um jeito de aliviar a dureza e humanizar aquele trabalho tão sofrido.
Esse canto foi registrado num documentário de Leon Hisrzman, Canto de trabalho – Cana de açúcar, na década de 1970. Achei que seria interessante mesclar as duas melodias, sendo que conversam pelo tema e musicalmente. Tarita embarcou nessa ideia e foi muito além, criando uma conversa sonora onde podemos sentir a força e beleza das duas cantigas.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 14
SAUDADE
Cantiga registrada em Campinas, interior de São Paulo.
Encontrei na pesquisa de Oswaldo Barbosa que registrou cantos da região entre 1950 e 1960.
Achei o tema pertinente ao repertório, falando da saudade desses tempos, inclusive do terreiro de café que foi tirado dos trabalhadores na música anterior.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.
Música 15
CANDARIN DE SINHÁ
Essa cantiga é fruto de uma importante pesquisa de Marise Barbosa no território Kalunga, em Cavalcante, Goiás.
“Kalunga é o nome do povo que vive nos vãos entre as serras dos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. Povo africano, afro-brasileiro e indígena que criou um território quilombola em fins do século XVIII, construindo uma vida em liberdade, consolidando sua existência como povo”. (Marise Barbosa)
Dona Dainda, Natalina dos Santos Rosa, foi quem transmitiu para Marise essa brincadeira cantada, que foi registrada no livro “O que é, o que é, Infâncias Kalunga” de Marise.
Renata Mattar é responsável pela pesquisa de repertório.